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16 set 20

Oi gente!

Na nossa newsletter deste mês vou falar sobre a inter-relação da Ayurveda com o Yoga. Como você sabe, eu levo muito tempo para processar informações novas e a minha pesquisa no universo do Ayurveda já tem algumas décadas. Depois de muitas reflexões e ponderações, eu começo agora, a dividir com meus alunos algumas das minhas opiniões. 

Eu e a médica, terapeuta ayurvédica e professora do método Kaiut Yoga, Luciana Costa, fizemos um artigo a quatro mãos para explorar o fato de um ser considerado a ciência da vida e o outro, a prática desta ciência.

Aliás, é a Luciana Costa quem compartilha um depoimento para contar os caminhos que a levaram a unir yoga e ayurveda tanto na vida pessoal quanto no atendimento de pacientes. E, por fim, eu lanço o olhar para a relação que o elemento Éter tem com as articulações.

Espero que você goste destes conteúdos que preparei com carinho para você.

Boa leitura!

A ciência da vida
Por Francisco Kaiut* e Luciana Costa**

Yoga é a prática da ciência da vida. Qual parte desse conjunto simples de afirmações e definições não entendemos? A prática, gente! Yoga é a prática dessa ciência. Sim, todos os dias você abre o tapete e prática a ciência da vida. Literalmente, assume o papel de cientista em um laboratório exclusivo, o seu próprio corpo. Isso é yoga.

Incrível essa perspectiva não? Saiba que fazer yoga está além dos músculos, do fitness, da força, da flexibilidade e de todo o universo conhecido pela ciência. Yoga é a prática da ciência da vida, a descoberta em si.

Fazer yoga é colocar em prática o que hoje é considerado arte, mas é a futura ciência da própria vida. E não somos nós que estamos afirmando isso. Essa é nossa interpretação de um escrito ancestral. Nas últimas décadas, a falta de compreensão da profundidade dessas palavras tem levado legiões de yoguis ao fracasso na implementação dessa lógica fundamental.

Eles sucumbiram às sedutoras, porém, ridículas e insustentáveis influências do mundo fitness, das revistas de saúde com profundidade nula e apenas interessadas em vender exemplares e das modas do mundo da saúde. Eles perderam suas raízes clássicas. Acharam que mantras bastariam. Não, mantras são passado, respirações e roupas coloridas também. Yoga é outra coisa.

 Yoga evoluiu.
 Yoga se renova.
 Yoga se reinventa.

Yoga hoje não é como foi ontem e, amanhã, será outra coisa.

Respiração yogui não é hoje o que foi ontem.

Yoga muda porque é a prática da ciência da vida. E a vida muda influenciada pelas mudanças sociais e nossa própria evolução enquanto espécie e sociedade. Raramente estes fatores são considerados.

Francisco Kaiut

*Francisco Kaiut é o criador do método Kaiut Yoga
**Luciana Costa é médica, terapeuta ayurvédica e professora do método Kaiut Yoga

Yoga e Ayurveda: a prática e a ciência da vida

Em 2010 comecei a fazer yoga por conta das dores articulares severas, da ansiedade e sintomas neurológicos degenerativos que me afetavam. Na época eu estava com 41 anos. Sou uma cientista e, desde que entrei na Faculdade de Medicina, procuro entender a origem de várias práticas. Com yoga não foi diferente. Eu busquei conhecer de onde tinha surgido aquela prática que já nos primeiros minutos me trouxe calma e me fez enxergar a possibilidade de resgatar meu estado natural de saúde, como eu li em um livro que estava na estante de livros do espaço de yoga que eu frequentava.

Por mais incrível que pareça, o livro se chama Saúde Perfeita e foi escrito por um médico endocrinologista americano de descendência indiana, Deepak Chopra. Na obra ele descrevia uma ciência de autocuidado com muitas evidências vindas de milhares de anos de observação e fazia correlações óbvias com a literatura moderna sobre fisiologia, patologia, anatomia. Desde então estudo, vivo, pratico e integro a medicina moderna com ayurveda e yoga na minha vida pessoal e daqueles que cuido.

Yoga e ayurveda são referenciados na filosofia védica. Os Vedas são conhecimentos resultantes das experiências de milhares de anos adquiridas por sábios hindus por meio da meditação, da experiência e da observação. Os textos védicos ou Upa-vedas são divididos em quatro livros: Rig VedasSama VedasYajur Vedas e Atharva Vedas.

Há referências a yoga no Yajur Veda, que relata a possibilidade de práticas para cura e harmonia do corpo e da mente. Enquanto sobre Ayurveda aparece no Atharva Veda com a descrição do uso de plantas, ervas e pedras para manutenção da saúde e no Rig Veda, mencionado por sábios que eram habitualmente médicos do povo ancestral hindu.

O equilíbrio dos cinco elementos

O Ayurveda, assim como o yoga, baseia-se em uma lei básica da física moderna – da relação entre energia e matéria – e, a partir desse princípio, como a energia vital dos cinco elementos primordiais do planeta terra estão equilibrados. Os cinco elementos básicos são Éter, Ar, Fogo, Água e Terra e manifestam-se em todas matérias do planeta. No corpo humano, como três tipos constitucionais chamados doshas, cada um com suas potencialidades e desequilíbrios. É justamente o equilíbrio entre eles a chave para a manutenção da saúde e para o tratamento das doenças.

A ciência moderna já identificou que uma substância sólida observada em um microscópio é vista como átomos e esses átomos são na verdade muito mais espaços do que realmente uma substância. Assim, todo o universo tem sua origem partir de um grande espaço que a física identifica como uma grande massa de hidrogênio.

O espaço é considerado o primeiro elemento, o Éter, e tem o potencial de formar os outros 4 elementos. Ele está manifestado no corpo humano como espaços, como as narinas, a cavidade oral, os espaços nas vísceras como estômago e intestino e os espaços articulares, por exemplo.

O Éter ou espaço, começou então a se movimentar e isso levou à produção do Ar, que é o Éter em atividade.  No corpo humano, o Ar está presente no movimento dos músculos, nas batidas do coração, na expansão e contração dos pulmões, nos movimentos e contrações do estômago e intestinos e nas atividades do sistema nervoso central, no que diz respeito aos movimentos das células nervosas.

Novamente houve mais movimento, causando fricção, o calor foi gerado. Partículas de calor-energia formaram uma luz intensa que gerou o elemento Fogo. No corpo humano ele está presente no sistema digestivo e representa o metabolismo, que é fonte de calor. Nas atividades cerebrais manifesta-se como a inteligência. E também é responsável pela visão.

Ao fornecer calor, o Fogo dissolve elementos etéreos (Éter) que se liquidificam e formam a Água. Por sua vez, esta, ao se solidificar, dá origem ao elemento Terra. Foi a partir da Terra que todos os corpos orgânicos e inorgânicos foram criados. O elemento Água manifesta-se nas secreções, sucos digestivos, glândulas salivares, nas mucosas, na parte líquida do sangue (plasma) e citoplasma.  A água é vital para o bom funcionamento do corpo humano. Enquanto o elemento Terra representa as estruturas sólidas do corpo como os ossos, músculos, tendões, cartilagens, unhas, pele, cabelos e tecidos.

Dessa forma o Éter revelou-se nos outros quatro elementos: Ar, Fogo, Água e Terra. Isso ocorreu por conta da energia, afinal, como explica a física de Einstein, energia é a capacidade de mover-se e provocar a transformação da matéria. Assim, todos os cinco elementos estarão presentes em todas as matérias do universo, lembrando que matéria é qualquer coisa que tem massa e ocupa espaço.

Combinados, os cinco elementos formam os doshas

A compreensão dos cinco elementos torna mais fácil o entendimento de que, para o ayurveda, todos seres humanos são constituídos pela combinação destes elementos. Além disso, o ayurveda classificou as combinações dos elementos em doshas – referindo-se ao perfil biológico – dando origem a três doshas que se manifestam a partir da combinação de dois dos cinco elementos.

dosha vata caracteriza-se pela junção Éter e Ar e está ligado às funções excretórias, nervosas e de movimento; o dosha pitta é a presença de Fogo e Água, ligado às funções metabólicas e digestivas; e o dosha kapha por Água e Terra, sendo responsável pelas funções estruturais e de lubrificação.

Como disse, todos carregamos os cinco elementos e, portanto, temos os três doshas. Entretanto, cada um de nós tem uma manifestação diferentes deles, definida na nossa herança genética e, da mesma forma que a ciência moderna, comprova somos seres únicos.

Desde o momento da nossa concepção somos influenciados por diversos fatores que podem agir equilibrando nossa saúde – nossa constituição inicial – ou causar desequilíbrios nos cinco elementos ocasionando as doenças. A civilização atual afastou-se desse conceito de saúde, desconectando de cuidados básicos como sono, alimentação, movimentos etc.

Fizemos isso apesar de, em 1986, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definir saúde não apenas com a ausência de doença, mas por ser um completo estado de bem-estar nos diversos níveis do ser humano, do físico ao emocional. Da mesma forma para o ayurveda saúde é estar com os três doshas, ou seja, os cinco elementos equilibrados conforme herdamos.

Os doshas vatapitta e kapha trabalham conjunta e dinamicamente para garantir a manutenção da nossa saúde. O desequilíbrio pode ter qualquer uma das três naturezas, enquanto os sinais e sintomas observados e descritos pelos indivíduos serão guias para o manejo. Na fisiopatologia do ayurveda todo distúrbio inicia com o acúmulo do dosha no seu sítio original.

Como exemplos, posso citar excesso de Ar acumulando no intestino grosso causando distensão abdominal e constipação, caracterizando desequilíbrio vata; acúmulo do elemento Fogo no duodeno levando à sensação de ardência, sinalizando uma inflamação, bem típico do pitta e, finalmente, o acúmulo dos elementos Água e Terra no estômago, no agravamento do kapha, levando a sintomas como náuseas, letargia e alterações digestivas.

A terapia ayurvédica identifica e compreende quais são as causas e os obstáculos à manutenção do correto equilíbrio dos doshas e, portanto, dos cinco elementos para então agir.

Luciana Costa

Éter e sua ligação direta nas nossas articulações

Yoga começou a fazer parte da minha vida quando eu tinha entre 16 e 17 anos de idade. Tive muito mais tempo de vida exposto à ideia e à influência dos “elementos” e doshas – enquanto conceitos ou mesmo inspirações fortes nas minhas escolhas diárias – do que pelos valores ocidentais de saúde e da nossa medicina tradicional.

Nascido numa casa que cultivava a saúde de várias formas e, mesmo nos anos 70 e 80, era território praticamente livre de açúcar, ao ser apresentado a uma ideia oriental de saúde por meio do equilíbrio, isso fez muito sentido para mim.

Depois vieram anos e anos de prática de yoga. Ao longo deste tempo, vi muitas modas passarem. Foram modas de dieta, na medicina, de saúde natural e até de yoga. Vi ainda tendências surgirem nos Estados Unidos e depois serem compradas no Brasil sem a menor reflexão. Foram tantas que aprendi a identificar as que seriam duradouras e as que passariam como cometas, mas não senti um aroma como o do próprio ayurveda, um aroma que fica.

Mesmo sendo um fã e reconhecendo o conceito e o valor natural dela, tenho meus questionamentos. Acredito que o elemento Éter, por exemplo, pode ser muito bem apresentado como sendo um ninho. Sim, um ninho, um espaço de conforto, segurança e potencial. Espaço que proporciona condições para o nascimento de todos os elementos e, assim, da própria vida.

Assumindo aqui o direito de estar errado, mas também de estar certo, discordo da visão clássica. O Éter – o espaço, o ninho – não tem a sua casa principal em espaços como as cavidades nasais e outras áreas habitualmente ligadas a ele. Esse elemento mora primariamente nas nossas articulações.

Não apenas isso. Ele mora, vive e é lá que pode ser acessado e positivamente expandido ou organizado. O Éter é cada uma e todas as nossas juntas e, a partir delas, conseguimos reorganizar o ninho. Para mim, trabalhar com as nossas articulações é ter acesso direto à essência da vida. Com a reorganização dele os demais elementos entrarão em harmonia em uma reação em cadeia.

Yoga é, sem dúvidas, o centro da minha vida. Ainda assim, passo meus dias tomando cuidado para não me tornar tendencioso. Acho importante testar tudo e quanto mais testo mais me surpreendo com os resultados positivos.

Acredito de fato que posições de yoga têm muitas faces e nuances, mas em essência elas são trabalho articular. Esse é o pontapé inicial para a reorganização do nosso corpo físico, ao mesmo tempo que reorganizamos a nossa essência energética desencadeando uma reação sistêmica positiva de auto regulação e otimização funcional.

Do ninho para a vida. Da articulação para a regulação plena.

Pratiquem com inspiração apaixonada,

Francisco Kaiut 

Escola Online Kaiut Yoga
Seu corpo independente e inteligente.