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16 nov 20

Olá!

A nossa newsletter de hoje traz o depoimento da querida professora do método Kaiut Yoga, Eve Pisani. Ela, que participou do 1º Workshop de Kaiut Yoga no Rio Grande do Sul em 2015, conta como foi sua jornada na prática, que começou ainda adolescente, até chegar ao método.

Inspirado pela história de vida da Eve, que mesmo já sendo professora de yoga, resolveu se abrir para outra técnica e mudar de caminho, eu comento o que já observei em muitos outros professores com 30 anos de yoga ou mais. Na maioria deles percebi uma incapacidade de entender o propósito da prática e atribuindo à genética o aparecimento de lesões.

Espero que goste do conteúdo que preparei com carinho para você.
Boa leitura!

“Tendo alcançado muitos mundos produzidos por boas ações, permanecendo [lá] por inúmeros anos, aquele que não foi bem-sucedido em Yoga, nasce novamente numa família onde há cultura e riqueza.” Verso 41

“Ou nasce numa família de yogins discriminativos. Em verdade, um nascimento igual a esse, neste mundo, é muito difícil de ser alcançado.” Verso 42

(BHAGAVAD GITA – CAP VI)
FONTE: Sínteses Livres De Textos Sagrados Hindus E Budista Por Antônio José Botelho. Pg 68.

Depoimento
Por Eve Pisani*

Não posso negar que encontrar a porta do yoga aberta foi uma mão e tanto. Porta que foi aberta por minha mãe, Ivete Pisani, numa época que para tornar-se professor de yoga implicava em ser um aluno muito diferenciado. No início de sua carreira, ela foi convidada por sua professora para substituí-la.

No Brasil, a formação de professores não era algo comum. Então, teve que, por conta própria, estudar muito. Tal fato, contribuiu para que buscasse encontros e cursos, como os que teve com professor Hermógenes, Jean Pierre Bastiou, Paulo Murilo Rosas entre outros.

Neste período, por volta de 1977, eu, uma adolescente um tanto difícil, fui por orientação de minha mãe, apresentada à sua professora, Irmã Itamira. Sim, uma freira. Hoje, enxergo tal fato como uma boa opção para drenar meus impulsos rebeldes. Com isso, o universo do yoga passou a fazer parte do meu mundo de atividades: dança contemporânea + yoga, tênis + yoga, faculdade de psicologia + yoga, a própria clínica psicológica + yoga. Desde então, segui na prática do yoga atrelada à minha formação em psicologia concluída em 1986.

Em 2001, iniciei minha primeira formação na área do yoga. Quanto sofrimento! A prática era realmente “draconiana”, sob uma disciplina férrea. Um massacre para essa alma que ansiava pelo tal moksha (a liberação, tão citada nos textos de yoga). Em 2002 iniciei minha vida como professora de yoga, no espaço junto à minha casa onde minha mãe dava aulas desde 1978. Minha formação se estendeu até 2006, quando fui convidada a me retirar da tal escola, por insubordinação, pois não reconhecia o tal professor como “mestre”.

Para meus alunos, levei uma prática mais fluída, mantras e incensos (que na realidade me intoxicavam – sou alérgica). Comecei a atrair muitos alunos, mas assim como vinham, iam embora. Alguns, seja pela idade ou condição física, não conseguiam acompanhar as aulas, enquanto outros, mostravam-se assustados com as imagens e mantras “esquisitos”. E assim, segui. Com isso, fui buscando outros cursos, muitos professores e vários métodos que fui agregando à minha formação inicial.

Em 2015, minha queridíssima amiga Camila Moscarelli me apresentou a um professor que havia criado um método revolucionário e incrível. Ao encontrar com tal professor, me deparo com um cara sorridente, simpático, de calça jeans e camisa branca. Logo pensei, que alívio, nada de roupas indianas! Parece uma pessoa normal, esse Francisco Kaiut.

No caminho, ele me mostra orgulhoso a apostila que havia preparado para o evento e fiquei encantada com tamanho zelo. Na sexta-feira tivemos uma palestra no meu espaço, de onde alguns colegas seguiram comigo para Gramado, onde aconteceu o workshop. Faríamos então, o 1º Workshop de Kaiut Yoga no Rio Grande do Sul.

Durante o evento, Francisco me colocou no famoso sukhasana. Traduzindo: postura fácil. Fácil? Chorei de dor, odiei, e tudo o que estava tão habilmente escondido no meu corpo veio para a superfície. O professor ainda me falou que meu pescoço não mexia. Como assim? Eu não sentia dor alguma no meu dia a dia. Tinha um corpo que nos meus então 54 anos, ainda fazia alguns malabarismos. Apesar da dor, ele me ganhou na primeira fala: “Onde é que os pequenos erros levam depois de muito tempo?” Tal pergunta ficou ecoando na minha mente.

Na segunda-feira, que alívio! Vou voltar ao normal, para minha prática habitual, fluída e sem dor. Mas aquela experiência, somada à uma compreensão que ia além de qualquer intelectualização, não me permitia voltar àquele normal e também me perguntava: “O que eu faço agora com tudo que sempre acreditei, propaguei e reverenciei? E os mantras? E os pranayamas? Continuar ou abandonar? Preciso compreender melhor isso tudo”. Assim, participei de vários encontros com Francisco antes de decidir pela formação.

Em 2017 seria dado início à formação em Kaiut Yoga. Mas, antes de decidir seguir por este caminho, precisei ter certeza. Assim, optei por ir para São Paulo fazer um curso com um renomado professor. Lá, não encontrei o mesmo zelo e tampouco o mesmo compromisso com o conteúdo abordado. Logo, estava decidida. Faria a formação com Francisco Kaiut.

No processo da formação me deparei com muitas diferenças entre o Hatha Yoga e Kaiut Yoga que me levaram a questionar alguns hábitos, como por exemplo os mantras. Sim, eu gosto, como talvez você goste de suas orações. Entretanto, hoje entendo ser algo totalmente particular. Levar minha crença para uma sala de aula pode ser considerado desrespeito para com as crenças alheias.

E os pranayamas? Para mim, agora, eles são parte natural da vida e respirá-los conscientemente é fruto natural da prática sistemática de yoga. Na realidade, vejo que é o que realmente importa, pois em situações extremas da vida, você não vai lembrar de nenhuma técnica. Se conseguir se lembrar de respirar e, através do “respirar consciente”, conseguir manter a calma, isso é tudo.

Ao longo destes cinco anos fui percebendo o quanto os conceitos trazidos pelo método estavam embasados nos preceitos filosóficos de escrituras antigas do yoga, como por exemplo “Os Yoga Sutras de Patanjali”. Pude enxergar a rapidez que os alunos respondiam às questões referentes ao alívio de dores crônicas, à conquista de liberdade nos seus movimentos, deixando-os visivelmente mais leves e felizes. Isso é moksha (liberação), algo que me levou ao yoga décadas atrás..

O yoga é fluxo. Eu é que estava rigidamente apegada a uma forma, a um hábito, algo que definitivamente não é yoga. Como bem disse B.K.S. Iyengar, o yoga é vivo e não pode se encerrar em mim, deve continuar evoluindo por meio de cada um dos meus alunos. O método Kaiut, a meu ver, é essa evolução. Um método que inclui e respeita a realidade de cada corpo e o leva à experiência de liberdade. E, é para essa experiência que tenho vivenciado, que quero levar os meus alunos.

Obrigada querido professor por sua ousadia!
*Eve Pisani é professora do Kaiut Yoga.

Vi, ao longo da minha carreira, milhares de professores de yoga nas minhas salas. Vi egos, sucessos, arrogância, força, flexibilidade e muita frustração. Só não vi ou talvez raramente tenha visto, professores sem dores diretamente ligadas às suas práticas de yoga depois dos 50 ou 60 anos de idade.

Recentemente em visita a um amigo em outra cidade, encontrei casualmente uma antiga professora de yoga muito conhecida, talvez famosa no Brasil. Nós nos apresentamos e….

Ela falou: “Ahhhh você é o professor daquele método pra gente com dor, não é?

Eu: “Acho que sou eu mesmo”.

Ela: “Achei muito parado” (falou deselegante como qualquer indivíduo inseguro).

Eu: “É parado mesmo” (sorri).

Ela: “Eu tenho muita dor nos braços, nos pulsos e no meu pescoço”.

Eu: “Sim dá pra notar pelo formato do corpo e pela sua movimentação” (falei esperando a reação de defesa, mas também me divertindo por dentro por achar tudo previsível demais).

Ela: “Foi de tanto fazer as posições … blá blá blá…”

Enfim, depois de alguns minutos fui embora chocado com o que aconteceu no mundo do yoga nestas últimas décadas. Ela não era culpada de nada, era vítima de um círculo vicioso.

Hoje as posições são culpadas pelos nossos erros. Elas foram destituídas do seu valor e da sua perfeição pela nossa pouca capacidade de entender o propósito da prática e, em especial, pelo grande número de professores desqualificados. Eles estão por todo o planeta espalhando a ideia de que devemos ter relações co-dependentes, assim, por conta do laço emocional, nunca ninguém é responsável por nada.

Atualmente os professores de yoga me assustam um pouco. Enquanto o mundo vibra com o potencial libertador da epigenética, esta tribo, que frequentemente se mostra menos flexível que a média (o que é curioso!), usa a conveniente carta coringa da genética para justificar suas questões cervicais, lesões de joelho ou degenerações de cabeça de fêmur entre outras questões.

A originalmente prática da ciência da vida torna-se, então, a vazia prática da busca por posições e seus formatos. Enquanto deveria almejar entender a função que cada posição guarda e a sustentabilidade alcançada no longo prazo.

Vejo grandes professores se consagrarem entre os 40 e os 50 anos e, depois disso, se esconderem tentando justificar seus erros em teorias não yoguis. Joelhos, colunas vértebras resultando dores.

Até os 50 eles são pura convicção, mas depois nem tanto assim. Curiosamente karma não é mais tão importante. De fato, não existe uma análise construtiva dos seus erros, apenas a necessidade de responsabilizar alguém ou de terceirizar o problema para outro.

Nesta fase da vida, muitos professores chegam até mim muito frustrados, pois fizeram tudo, supostamente, certo e deu tudo errado. É surpreendente para mim que eles não são mental ou emocionalmente mais flexíveis na média. São mais rígidos, sim; décadas de yoga depois e eles têm dificuldades para mudar de ideia. Uma piada. Apenas alguns no desespero da dor e do medo acabam sendo compelidos na direção da mudança pela própria necessidade.

A Eve entrou na minha vida para trazer um novo ar. Ela me mostrou que a yoga pode sempre construir uma personalidade flexível para todos quando existe uma intenção pura de encontrar uma vida realmente melhor, mesmo que as práticas ou técnicas não sejam perfeitas. Intenção é tudo.

Ela chegou e entrou na minha sala, era uma mulher adulta, madura e com uma vida dedicada ao yoga. Encontrou ideias novas e inovadoras, também desafios e dores além da imaginação e, em lágrimas, acabou ultrapassando da dor para a alegria. Isso porque entende que encontrou yoga como verdadeiramente buscava, ao invés de resistir, justificar ou culpar.

Então, finalmente a Eve fazia yoga de verdade. Aqui encontrou uma prática compatível com a sua intensa busca interna.

Parabéns pupila!

Queridos

Yoga não é sobre o corpo, não é sobre a técnica, não é sobre a respiração. Tudo isto é ferramenta. O que importa é o resultado. Equilíbrio no sistema nervoso, cérebro que neuro-plasticamente explode em conexões infinitas, inteligência emocional e um poder de foco incrível. Isto é yoga. O corpo vai sim responder. Mas para que ele responda precisamos de uma prática cheia de diversidade, muito sustentável e inteligente.

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Pratiquem com inspiração apaixonada,


Francisco Kaiut 

Escola Online Kaiut Yoga
Seu corpo independente e inteligente.