Diário de Francisco: Azedou a guerra de frutas

27 nov 19

Francisco Kaiut conta como foi sua recuperação após romper o tendão de Aquiles em uma confraternização.

Há 3 semanas, antes do meu 48° aniversário e no meio do curso de formação, Teacher Training – The Teaching Side em Canela, eu rompi o tendão de Aquiles. Ao contrário da maioria das lesões, que acontecem durante uma atividade física, esta foi uma situação um tanto inusitada. Vou contar para você o que realmente aconteceu.

Durante a pré-celebração do meu aniversário, estava aproveitando a noite no jardim da casa dos meus amigos Camila e Leandro, que é cheio de árvores frutíferas maravilhosas. Lembro-me de escolher uma boa garrafa de vinho quando, de repente, vi pelo canto do olho uma banana voar. SMACK! A banana explodiu na parede. Naturalmente, meu instinto animal bateu e pensei “Onde está essa droga de banana?” Então, me mexi rapidamente para encontrar uma banana para o contra-ataque. A guerra começou e as bananas começaram a voar.

No meio da batalha comecei a correr, pois acabou minha munição. Enquanto corria, virei para o lado e CLECK! Meu dedão encostou na canela, rompendo o tendão que unia meu calcanhar à panturrilha. A dor foi imediata.

O acidente me fez refletir: estou praticando yoga corretamente ou cometi erros? Este foi o primeiro pensamento que tive. Me machuquei em um acidente aleatório ou por que estou cometendo erros na prática e o acidente é apenas uma consequência desses erros?

Então, lá estava eu no meio de um Teacher Training com um tendão de Aquiles rompido. “O que vou fazer agora?”, pensei. Lembrei da minha palestra durante o curso, no dia anterior. Uma palestra sobre transformar qualquer acontecimento em um recurso. Decidi aplicar a teoria na prática.

Sabia que meu rompimento de tendão seria grave suficiente para uma cirurgia, porém optei por uma opção de tratamento natural. Decidi aguentar a dor severa, experienciá-la e permitir que se tornasse uma vantagem.

Escolhi usar a dor como uma lição, uma inspiração, ao invés de uma fonte de frustração e reclamação.

Na manhã após o acidente, comecei meu dia do jeito de sempre: dois cafés expressos enquanto revisava os planos de aula do dia. A única diferença era que eu estava em uma cadeira de rodas ao invés de um tapete de yoga ou uma cadeira. Enquanto me preparava para a aula, sabia que ficaria na cadeira de rodas o dia todo, o que é totalmente diferente da minha rotina de aula normal, na qual vejo a sala inteira de diversos ângulos. Teria que planejar a aula sabendo que ficaria numa cadeira de rodas com apenas uma visão da sala, tentando enxergar o máximo possível.

Primeiro passo, teria que me preparar para dar aula sem ver a sala por completo. Precisava apoiar cada aluno à distância e, além disso, lidar com toda a dor no meu tornozelo.

O momento que entrei na sala de aula foi a hora de colocar a teoria em prática. Por conta de todas as dificuldades da situação, assim que comecei a lecionar, percebi que precisava performar o meu melhor.

Os meus alunos sentiram que fui capaz de me conectar com eles em um nível profundo e dar uma aula melhor por causa do acidente e não apesar do acidente. Todos sabiam que eu sofria com uma dor intensa, mas por causa da dor, percebi que eu era capaz de ser um professor melhor.

Fazem 7 semanas desde o acidente e minha recuperação tem sido muito boa, considerando a complexidade da lesão. Já estou colocando tensão na região para acelerar o processo terapêutico. Ainda sinto dor e insuficiência circulatória na região, mas acredito que terei 100% de regeneração. Isso é muito importante para mim.

Durante todo o processo de ensinar yoga com a dor, sob o ponto de vista de ser uma lição e vantagem, descobri novas formas de comunicação com meus alunos. O que me mostra que o método não é apenas hipotético ou só teórico. O método é real e tem aplicações práticas.

Fui capaz de observar uma alteração no meu comportamento, mudando a tendência de se frustrar e evitar a dor. Mantive o foco no humor, qualidades positivas e em aprender como podia ganhar com o acidente em vez de focar na dor e na frustração, comprometendo a prática. Foquei no lugar correto. Desde o acidente, minha prática tem melhorado e tenho sido capaz de refiná-la de maneira significante.

Com frequência, coisas acontecem na vida que não planejamos, mas são exatamente essas coisas que o ser humano foi criado para acomodar. Do meu ponto de vista, as coisas que não podemos planejar são as que tornam a vida tão interessante e maravilhosa para viver.

Com 48 anos de idade, estou feliz com o rompimento do tendão de Aquiles por que este acidente mudou minha perspectiva sobre a dor e me ajudou a desenvolver minha prática pessoal em um nível totalmente novo.

Kaiut Yoga é sobre permitir que a dor te guie, seja sua professora, para que você aprenda a controlar o inesperado a seu favor.

Francisco Kaiut