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História

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“ QUANDO ME PERGUNTAM COMO COMECEI MEU TRABALHO, MINHAS PESQUISAS E MEU MÉTODO, SEMPRE FICO UM POUCO CONFUSO E, ATÉ CERTO PONTO, INSEGURO.
CURIOSO, NÃO?”

Depois de me pedirem pra escrever este pequeno texto contando esta história, refleti muito e acabei concluindo o porquê dessa insegurança.

Bem, para que vocês entendam, preciso contar a história desde o início. Este método, este trabalho, começou na verdade quando eu tinha seis anos de idade. Sim, apenas seis. Aos seis anos, brincando com meus primos no quintal, um deles, em plenos anos do regime militar, pegou, no carro do meu pai, que era militar, uma arma de fogo deixada ao acaso. Achando que era brinquedo, ele, aos sete anos, apontou pra mim e disparou contra meu quadril. Branco, branco, branco, branco, branco, branco, branco, branco… Sim, meus queridos, branco.
Daquele momento em diante, se por ser este um grande tabu dos anos militares, se por forças emocionais familiares ou apenas pelo trauma em si, não importa, mas minhas memórias sumiram.
Hoje sei que tudo aquilo que eu achava que eram memórias da minha infância eram, na verdade, apenas fotos de família que vi depois do dito acidente. Não sei exatamente quando, por volta dos oito ou nove anos de idade, percebo que as memórias, ainda que esparsas, passam a ser reais e não só registros fotográficos.

Bem, já que eu não tinha memórias e que, obviamente, o assunto era um tabu por conta do contexto social da época, mesmo sabendo teoricamente que levei um tiro, nunca de fato entendi o significado disso, as consequências e mesmo a ausência de memória.

Aos dez, talvez doze anos de idade, eu já precisava periodicamente ir ao massagista. Dores nas costas, torcicolos etc. Quando, mais de 20 anos depois, enquanto terapeuta quiroprático, eu trabalhava por volta dos meus 25, 28 anos de idade, 40, 50 horas por semana em posições exigentes, as minhas dores lombares e cervicais eram horríveis.

Apenas aos 29, quase 30 anos de idade, já depois de muitos anos de yoga é que meu grande professor, já em nosso primeiro encontro, vendo minhas restrições físicas, disse que eu tinha tantas dores e limitações por conta de um acidente de infância. Depois de muito pensar, quase como um raio, me lembrei do acidente. Praticamente no mesmo instante conectei a cadeia de eventos, dores, desconfortos e problemas físicos com aquele acidente.

Bem, hoje, anos depois do insight, já pude ver exames meus, pedir para vários profissionais me examinarem e já compreendo a tal cadeia de eventos. Nunca mais recuperei a memória, mas este detalhe me lembra sempre de como devo agradecer a este acidente por ele ter feito de mim o profissional que sou.

Hoje, quando vejo um exame de quadril dos meus alunos ou quando explico, em termos de yoga, exames de sala de aula, tudo o que parece supercomplicado para um olhar leigo ou para profissionais de outras áreas da saúde pra mim nem é tão complicado assim. Lembro-me do meu próprio exame e vejo que nem tudo é tão difícil quanto parece a primeira vista. Lembro também que o potencial humano de recuperação da mobilidade e da função é muitas vezes incrível, como diariamente vejo em mim que vivo sem dor alguma e com uma mobilidade que dificilmente permitem que alguém imagine pelo que passei.

Bem, desde o momento em que meu professor me permitiu ver com clareza meu próprio quadril e minha história, a partir daí e com as diretrizes conceituais dele, me dediquei profundamente `a questão de sermos humanos, bípedes e termos o quadril como um dos grandes pilares da nossa saúde e do uso do nosso corpo.

Enquanto quiropata, revi todo o meu conhecimento e minhas teorias. Enquanto massagista, revi toda a minha compreensão de cadeias musculares, músculos etc. E, enquanto professor e praticante de yoga, passei a analisar todas as posições que eu conhecia, os métodos diferentes e mesmo grande parte da história da yoga `a luz moderna biomecânica, `a luz da minha história e, então, e provavelmente o ponto mais importante, `a luz do uso moderno do corpo na sociedade humana.

 

SIM, HOJE, NÓS HOMENS E MULHERES MODERNOS, SOMOS SERES SENTADOS. AS CADEIRAS E SUAS VARIAÇÕES – CARROS, BANCOS DE CINEMAS, SOFÁS ETC. – SÃO OS LOCAIS ONDE PASSAMOS GRANDE PARTE DA NOSSA VIDA. ESSES LOCAIS APARENTEMENTE TÃO AGRADÁVEIS, NA VERDADE, MOLDAM E MUTILAM O POTENCIAL DE USO DAS NOSSAS JUNTAS. LIMITAM E BLOQUEIAM O QUE A NATUREZA PROJETOU PARA NÓS E NOSSO QUADRIL NOS ÚLTIMOS MILÊNIOS DE EVOLUÇÃO BIOMECÂNICA.

Agora pagamos esse preço. O preço de priorizar o conforto em detrimento da função e da própria evolução.

A partir da minha experiência e dos meus estudos, percebi que o uso que fazemos do corpo é hoje mais nocivo do que imaginamos, mas também percebi que as posições clássicas de yoga eram muito melhores e avançadas do que pareciam. Juntei essas duas partes da conclusão, o uso restrito do corpo e a perfeição potencial das posições e percebi que só precisava traduzir as posições para hoje, incorporar como variável dessa equação a posição sentada em cadeiras que marca nossa vida e teria um resultado único. Não o meu método, mas o que acredito que o yoga hoje deve ser. Um dom natural da raça humana que hoje pede a consideração desses fatores todos, a aceitação deles.

Provei, testei em mim, nos meus filhos, naquilo e naqueles que eu tinha e tenho de mais caro e ganhei. Todos melhoraram.

Meus dois filhos, pela ação perfeita da natureza, nasceram abençoados por limitações físicas que os fizeram ávidos por yoga.

Depois, responsavelmente e testando com segurança, levei meus novos conceitos e ideias para os alunos. Para dez, depois cem e depois mais de mil. Proporcionalmente, os resultados foram incríveis. Vi e vejo exames mudarem, resultados e laudos se transformarem, pessoas mudarem.

Hoje tenho certeza de que sermos bípedes e termos decidido nos sentar foi um marco. Hoje tenho certeza de que ainda não sabemos quase nada sobre nosso processo de envelhecimento articular e estrutural. Hoje tenho certeza de que, ao sentar meus alunos no chão, marquei meu maior gol. Hoje tenho certeza de que o potencial de regeneração do nosso corpo ainda segue dormente e inexplorado, é imenso e mal o vislumbramos. Hoje tenho certeza de que, para cada droga regenerativa duvidosa, teremos, em algumas décadas, posições eficientes e lógicas sem efeitos colaterais e que o yoga mais uma vez se levantará para firme seguir conosco por mais alguns milênios. Não como o yoga clássico do passado, mas como o yoga atual e versátil do futuro. Uma arte de flexibilidade não poderia nunca se vir engessada num padrão antigo.

Neste ano tão especial para mim, em que completo 25 anos de prática de yoga, é um prazer poder compartilhar um capítulo fundamental da minha história e desse yoga que todos nós praticamos.

NAMASTÊ!.
Francisco Kaiut